sábado, 29 de outubro de 2011

Devaneios


            Acordei cedo, cuidei dos meus cabelos com um capricho especial que a muito eu não tinha. Coloquei aquela calça que eu tanto adorava e você dizia ser horrível. Eu parecia pronta para te afrontar. Como se fossemos coincidentemente nos esbarrar em qualquer esquina, quem sabe pararmos no mesmo sinal de trânsito.
            Peguei a chave do carro, a da casa, uma carteira de cigarros. Eu que nunca tinha fumado antes agora me vejo escrava de mais esse vicio. Vaguei por algumas ruas desertas. Eu não sabia aonde queria ir, sabia apenas que não queria ficar sozinha em casa. Aqui sou apenas eu, aquelas comédias românticas que eu te obrigava a assistir e o meu estoque secreto de chocolate. Depois de algumas horas vagando sem rumo entrei em uma livraria e fui diretamente buscar aquele livro que tanto me lembra você. Parece burrice demais, eu sei que vou chorar a cada palavra pronunciada, a cada lembrança revivida.
            Cheguei à conclusão que eu precisava ter a certeza de que ainda era capaz de lembrar-me cada linha do teu rosto, cada sorriso (sorriso bobo, sorriso torto, sorriso só para me fazer sorrir também), cada olhar (olhar de menino pidão que sabe conseguir o que quer), a maneira como você mexe nos cabelos (cabelos que eu tanto afaguei). Descobri que não me lembro dos detalhes. Não lembro mais como os contornos dos teus lábios se encaixavam perfeitamente aos meus, nem como eram castanhos os teus olhos ou como tuas mãos se moldavam bem a minha cintura. Não lembro. Não me permito lembrar.
            Caminhei entre as prateleiras, encontrei o livro desejado. O peguei com extremo cuidado,como se manuseasse uma arma e pudesse acidentalmente acionar o gatilho,não sabia eu que o gatilho havia sido acionado no instante em que nossos olhares se cruzaram pela primeira vez. Li claramente duas ou três páginas, o resto não passou de palavras borradas vistas entre lágrimas e soluços. Era hora de voltar para casa, eu havia perdido totalmente a noção do tempo, já era noite.
            No dia seguinte resolvi pela milionésima vez, apenas essa semana, que precisava dar a volta por cima. Coloquei uma roupa confortável e fui caminhar um pouco, essa foi sem dúvidas uma das piores decisões tomada nos últimos dias. Você, espécime tão raro, parecia ter virado a ultima moda da cidade. Todos parecem ter o seu corte de cabelo, o seu estilo metricamente desarrumado. Seu perfume me perseguiu por cada rua, cada esquina.
            Voltei pra casa.
            Resolvi ligar para você, queria deixar tudo em pratos limpos. Não aguento mais essa situação, essa disputa infantil para ver quem é mais orgulhoso. Peguei o telefone, ainda tinha todos os seus números gravados na agenda. Acabei indo parar na pasta de mensagens recebidas, suas mensagens. Reli cada palavra carinhosa, desabei em meio ao quinto ou sexto Eu Te Amo. Você me chamava de minha menina, minha pequena. Hoje eu não sou mais sua, também não sou minha, não sou de ninguém. Às vezes tenho duvidas se ainda sou alguém.
            Quem sou?
            Sou o espaço vazio entre teus dedos, o lugar desocupado em tua cama, a brisa que sopra teus cabelos. Sou aquela folha que hoje a sua frente brincou ao vento e assim te roubou um sorriso. Sou o choro preso a garganta, choro que sufoca. Sou apenas aquela flor que em afronta a todos brotou no asfalto.

                                                                                                                                  FIM

1 comentários:

Jéssica G.Nasc disse...

Já perdi as contas de quantas vezes reli esse texto no e-mail que me mandaste... Fiquei tão feliz ao vê-lo aqui! Gosto de como essas palavras se encaixam perfeitamente.

;*

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